sexta-feira, 1 de outubro de 2021

ebiruzek rádio 1 - Mano Brown entrevista Fernando Holiday

No último dia 19 de agosto fiquei sabendo do então futuro lançamento do podcast Mano a Mano, capitaneado pelo Prof. Dr. Pedro Paulo Soares Pereira, mundialmente conhecido como Mano Brown.

Fiquei animado com a novidade. É sempre bom (e raro) ouvir Mano Brown falando sobre assuntos variados. Vê-lo perguntando e debatendo com convidados, no papel de entrevistador, seria uma oportunidade única.
 

Mano a Mano está disponível no Spotify.

Minha animação, porém, deu lugar ao choque quando vi a lista de convidados desta primeira temporada. O nome do vereador Fernando Holiday ali me causou arrepios. Definitivamente não esperava ver alguém como Brown sentado à mesa com alguém como ele.

Os episódios foram sendo publicados e Mano Brown se confirmou como um grande entrevistador. Não sei o estimado leitor, mas eu não esparava nada diferente. Pessoas como Brown são muito acima da média e não dão passo em falso.

Ciro Hamen, no O Brasil Que Deu Certo, fez uma análise do primeiro episódio e destacou que Brown falou muito sobre si na conversa com Karol Conká. Análise com a qual eu concordo, mas os episódios seguintes mostraram que essa não seria uma constante. A impressão que ficou é de que ali o líder dos Racionais estava "protegendo" Karol. Falou muito de si pra mostrar que a rapper e ex-BBB é como ele e, eventualmente, como qualquer outro. Um exercício de empatia no seu programa de estreia, onde todos os olhos estavam voltados para ele. 

Mauricio Stycer, no UOL, definiu Brown como "o melhor entrevistador do ano". Stycer aponta que foi justamente na última entrevista que deixou "evidente, se ainda houvesse dúvidas, o talento de Brown como entrevistador". O último entrevistado foi exatamente Fernando Holiday.

Confesso que a priori não gostei da ideia de ver alguém da magnitude do Brown emprestando seu espaço, seu tempo e seu prestígio a um sujeito que ajudou, literalmente, o fascismo a chegar ao poder. Mas é aí que está o pulo do gato: visivelmente o interesse do rapper era tentar entender de que maneira alguém como Fernando Holiday acaba nos braços do fascismo. Um exercício a que apenas os grandes intelectuais se sujeitam. Seria muito mais fácil e cômodo entrevistar apenas os parças, os aliados, mas Brown escolheu o incômodo e o aprendizado.

A conversa teve como fio condutor as semelhanças dos interlocutores e não suas diferenças, ainda que estas tenham sido apontadas pelo apresentador com frequência, sempre de forma contundente, porém leve. Como um Che Guevara, Mano  foi duro, mas sem perder a ternura.  Frases como "não trouxe você aqui pra te desmoralizar e você percebeu isso", "eu acredito que jovens como você têm que ser ouvidos também, mesmo não concordando" e "eu sou daquele romântico que acha que o Holiday pode pensar diferente" são ouvidas durante a entrevista.

Na reta final do episódio, Brown revela "eu espero que todas as inteligências pretas trabalhem em comunhão". Ele sabe que Holiday não é um aliado. Fala com todas as letras que as ideias que o vereador defende matam o povo preto todos os dias. "Moedor de carne".

Holiday é raso como um pires, Brown podia ter tripudiado dele, mas ouviu com atenção e terminou com um "gostaria que você repensasse sobre as coisas que você falou e sobre as coisas que você não sabe".

Se o Holiday tem "salvação" eu não sei, mas o Brown certamente ganhou a mente de uma galera que se identifica com o Holiday , que pensa como o Holiday e que vai ficar com essa frase martelando na cabeça. 

Para este que vos escreve, ficou a sensação de que se há alguém que poderia ter entrevistado Fernando Holiday de forma proveitosa e sem nos embrulhar (muito) o estômago, esse alguém é o Prof. Dr. Pedro Paulo Soares Pereira. O homem é brabo.

Você pode ouvir a entrevista clicando aqui

Por enquanto é só. Até mais.