O frequentador mais atento desta birosca já reparou que evitei tratar aqui de resultados esportivos. Não que eu não tenha comemorado demais com cada medalha brasileira, ao contrário. Cheguei ao ponto de vibrar loucamente - e até abrir uma cerveja - vendo duas patricinhas passeando de barco. Aqui neste espaço, porém, procurei escrever (com menos frequência do que gostaria, inclusive) sobre as histórias que acontecem ali pelas brechas, nos cantinhos, enquanto a maioria dos olhares estão voltados para os grandes nomes e grandes feitos. Essa deve ser a linha por aqui em todos os assuntos, é como gosto de olhar o mundo.
Há os casos, porém, onde a história transborda a brecha e toma conta do todo. Rayssa Leal chegou como uma grande personagem em Tóquio e voltou ao Brasil como uma lenda olímpica. Quem não se derreteu como manteiga no pão quente vendo e/ou ouvindo Rebeca Andrade (destaque para a entrevista dela com Karine Alves no SporTV) está morto por dentro. E o que dizer da participação de Hebert Conceição, que chegou sem nenhuma badalação, apontado como um nome promissor para 2024 e que nocauteou nossos corações com o desabafo "eu mereço pra caralho!" ao garantir a vaga na semifinal (e consequentemente uma medalha) olímpica, para depois nocautear o ucraniano, aí sim com um belíssimo soco na cara, na conquista do ouro?
Assim como na vida, contudo, nem só de coisas boas são feitos os jogos olímpicos. Comoveu o mundo o drama de Simone Biles. A escolha dela de abrir mão de disputar provas (para as quais era favoritíssima), quebrou um paradigma e inaugurou um novo tempo no esporte mundial. Até 2021 o ideal de atleta era Gabriela Andersen e seu exemplo de ir até o fim, superando qualquer dificuldade e ignorando qualquer possível consequência. Biles vira, a partir de agora, a referência para que uma nova geração de atletas possa escolher priorizar a própria saúde, mesmo que isso signifique deixar de conquistar medalhas olímpicas. Um feito que nenhum salto pode superar.
| Gabriela Andersen nas Olimpíadas Los Angeles, em 1984 — Foto: Focus on Sport/Getty Images |
Outro destaque triste dos jogos foi o sérvio Novak Djocovid, digo, Djokovic. Como se não bastasse ser um notório negacionista e anti-vacinas, o rapaz colecionou presepadas em Tóquio. O roteador de covid resolveu falar sobre a escolha de Biles de não disputar algumas provas, confirmando a tese de que boca de otário é como fralda de neném. Dentre outras coisas, o moço disse que "a pressão é um privilégio" e "se quer estar no topo, é melhor aprender a lidar". Horas depois da declaração ele viria a estraçalhar sua raquete com pancadas no chão, ao perder a disputa da medalha de bronze no individual. Em seguida meteu um migué para abandonar a competição de duplas mistas, tirando de sua parceira Nina Stojanovic a chance de disputar uma medalha. Feitos que nenhum título de Grand Slam pode redimir.
| O que sobrou da raquete de Djokovic - Foto: Tiziana Fabi / AFP |
E como tudo que é bom dura pouco, as Olimpíadas de Tóquio acabaram como num piscar de olhos. No quadro de medalhas o Brasil quebrou seu recorde e realizou sua melhor participação da história. Conquista que se deu apesar do desmonte sistemático das políticas públicas para o esporte, que pode ser resumido pela extinção do Ministério dos Esportes. Nos resta agora esperar pelos jogos de Paris 2024, torcer para que até lá tenhamos superado a pandemia e que nossos atletas consigam desempenhar tão bem quanto fizeram no Japão.
E por falar em Paris 2024, termino este texto já pensando na cerimônia de abertura dos próximos jogos. Lanço aqui uma ideia e inauguro uma campanha, contando desde já com o apoio do amigo leitor. Quero Isaquías Queiroz como nosso porta-bandeira nos próximos jogos e mais do que isso: Isaquías como o BESUNTADO BRASILEIRO em Paris, mantendo a tradição olímpica iniciada nos jogos Rio 2016.
Façamos esta ideia chegar ao Isaquías e ao COB.
Voltamos a qualquer momento com novas informações.
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